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Tentarei seguir um exercício que a Sheila Heti fez no livro Alphabetical (ainda inédito no Brasil), ela coletou 500 mil palavras de diários escritos em uma década, colocou as frases em uma planilha e as classificou em ordem alfabética.
Terei que escrever sem inspiração e com bem menos palavras, esperando que esse treino desperte algo em mim. Tomo vitamina D diariamente, pois a luz que eu preciso sentir ainda não compareceu nesse inverno cinza e molhado. Temo que todo sol, que peguei nas férias de final do ano, não foi acumulado em meu corpo e sinto falta do calor tocando minha pele. Tenho ligações longas com amigas antigas e cada vez entendo menos o comportamento masculino, mas deve ser culpa minha, preguiça em compreender. Tolero. Triste conhecer homens fechados em seu mundo restrito, que nunca leram ou consumiram arte produzida por mulheres, como conhecer algo ou alguém sem a leitura? Tortura. Travo dialéticas internas. Todos os dias. Tudo igual. Tento me mexer, ir ao pilates, caminhar mais. Ter a disciplina de um corpo ativo para manter alguma sanidade. Trouxe muitos livros escritos em português na mala, para o resto do ano ou para além. Terei que correr para ler tudo, mas pra que? Tenho pressa, mas não preciso ficar agoniada, nem ansiosa, posso esperar, ter calma, respirar fundo e expirar como o professor ensina na aula de yoga. Tenho certeza que meus livros não irão sumir. Ter paciência. Trilhar novos caminhos por meio da leitura. Também faço planos, cursos, viagens, vejo pessoas queridas, futuro perto ou mais pra frente. Te ouvir aquece o coração, teu sotaque, tuas angústias, tua rotina, parece que tenho aqui no quarto ao lado. Telepatia. Temo ficar entediada, ressentida, indiferente, mas sei que isso não me cabe, não existe espaço em mim. Tormento sem precisão. Torpor. Tampo o brilho saturado que reflete da neve com a mão até colocar os óculos escuros que estavam jogados na bolsa. Tudo tem que ser esclarecido, explicado, minha amiga reclamou em uma conversa percebendo que não tem resposta para todas as questões. Temo que o rancor seja autossabotagem e na realidade só afaste o outro. Trago memórias ruins comigo desde muito cedo, desde a infância quando conseguia ver tudo com transparência e não existia tanto ensaio, aquela carta que te escrevi e você rasgou, eu vi o que você fez e guardei. Trinta anos depois. Tu também foi vítima e algoz, o que deu pra fazer em matéria de história de amor. Tecemos por nossos atos. Trilha. Trabalho remotamente, olho para tela do computador por várias horas e quando quero descansar a vista olho para a tela do celular. Tenho reuniões virtuais, alguns colegas ligam a câmera, outros não, observo só o quadrado faltante, vazio, escuro como um buraco negro. Temo que me sugue. Telas e telas e telas. Terminei o livro da Virginie Despentes, A Teoria King Kong, e esse é o último parágrafo: “O feminismo é uma revolução, não uma estratégia de marketing reorganizada, ou algum tipo de promoção de felação ou swing; não apenas uma questão de aumentar os salários secundários. O feminismo é uma aventura coletiva, para mulheres, homens e todos os outros. Uma revolução, bem encaminhada. Uma visão de mundo. Uma escolha. Não se trata de contrastar as pequenas vantagens das mulheres com os pequenos bens dos homens, mas de fazer tudo voar pelos ares. E com isso me despeço de vocês, meninas, e uma viagem melhor…” Tenho confiança. Triunfo. Tenho medo da ausência. Tenho fadiga dos mesmo assuntos, das mesmas fotos, das mesmas polêmicas, das mesmas notícias onde o mundo acaba repetidamente. Tribunal da internet que revira o estômago. Tomam decisões infundadas e precipitadas como se tomassem cachaça. Testemunha. Tesão reergue o sentido das coisas. Troço estranho é ir contra e refazer a lógica. Terror. Tempo. Tornar-se alguém. Tenho um texto.


“Terei que correr para ler tudo, mas pra que?” . Pergunta que todos nós devíamos nos fazer …. Texto perfeito ! Parabéns
Belíssimo texto, adorei😘