Pras cucuias
Mas que coisa estranha, eu continuo existindo, eu não me esfarelei como meu coração ano passado.
Emergi depois de afundar e me juntar aos peixes transparentes do fundo do oceano, aqueles bichos esquisitos das profundezas que nunca vislumbraram a luz do dia, sabe?
Eles piscam com efeito estroboscópico, tem dentes afiados que não cabem na boca e uns olhos arregalados sem alma.
Na virada do ano geralmente começamos algo novo com o pensamento positivo de que nada vai pras cucuias, que “aah esse ano vai dar bom”. Eu tinha a opção de usar um vestido verde ou preto…
O acaso me pega no avião rumo à Islândia, da minha janelinha vejo as luzes dançantes que vieram mostrar a sua coreografia bem ensaiada.
Luzes verdes de uma terra gelada.
Não sabia que em Setembro elas ainda estariam saltitantes e exibidas, achei que já teriam se recolhido quietinhas, porém diante dos meus olhos balançavam sem música.
A vida te leva pro fundo do mar, e para um céu verde, desses que a gente só vê em fotos, que nem soam reais, lembra descanso de tela do computador. E verde, logo essa cor, essa cor que significa o que eu mais tive repulsa. O que mais tive vergonha de ter, o que eu não quero sentir. Mesmo com as cigarras cantando alto e as esperanças me seguindo na viagem para a serra.
Quero eliminar e chinelar essa esperança.
Mas as luzes aparecem como um lembrete, não adianta correr que a gente te pega e aí na virada do ano eu uso verde.


Na hora, aqui agora, quando a banda tocar
Senhoras e senhores, crianças, vamos voar
Voar, voar, podem desatar os cintos de segurança
Que a esperança é vontade
Que a bonança é verdade
Que a verdade é amar
Essa cor nos faz VerDe perto o futuro, que é logo ali… Que 2025 seja repleto de coisas verdes na sua vida!!!