Meu tempo é quando
A língua que falamos determina como pensamos, essa é a reportagem da BBC Brasil que me fez refletir sobre o tempo.
As línguas compartilham categorias básicas para refletir experiências humanas semelhantes, mas segundo o linguista Caleb Everett alguns desses conceitos fundamentais não são universais. No livro baseado em pesquisas com idiomas da Amazônia brasileira, ele demonstra que diferentes culturas possuem visões distintas sobre tempo, espaço e números, indicando que a forma de perceber e pensar o mundo varia entre os povos.
“Algumas línguas têm muitas palavras para descrever um conceito como tempo. Outras, como a Tupi Kawahib, sequer tem uma definição de tempo”.
Quando essas pessoas falam sobre o futuro, elas apontam para trás, e quando falam sobre o passado, apontam para a frente.
Sempre imaginamos que caminhamos em direção ao futuro, para eles a lógica é inversa. O passado é visível: sabemos o que comemos no café da manhã ou o que aconteceu ontem. Já o futuro permanece desconhecido, invisível.
É fácil analisar o que passou e fazer sentido. Mas o passado também é modificável. Quando falamos sobre ele podemos construir diferentes combinações, inventar novos cenários, tornar a sombra mais escura, criar um novo desfecho. Eu adorei ler a autoficção Ioga, de Emmanuel Carrère, e ao final da história saber que o autor inventou algumas situações e personagens, ele acaba revelando para o leitor em tom confessional.
“Não posso dizer deste livro o que com orgulho disse de muitos outros: ‘Tudo aqui é verdade’. Ao escrevê-lo, preciso deturpar um pouco, deslocar um pouco, apagar um pouco, principalmente apagar, porque sobre mim posso dizer o que eu quiser, inclusive as verdades menos lisonjeiras, mas sobre os outros, não”.
Até o Japão quando deixou de ser um país semifeudal e fechado para o mundo e passou a potência industrializada, trocou a ideia de “tempo”. Sai a concepção de uma temporalidade ancorada em conceitos espaciais que dialogavam com o passado idealizado do período Edo (1603-1868), o tempo dos xoguns, e entra o conceito sincronizado com mecanismos padronizados próprios de uma burocracia nacional-imperial.
Tempo é um tema infinito e difícil de quantificar. Lembra quando perdemos a noção dele durante a pandemia?
O tempo também é contado por acontecimentos.
Depois da festa de formatura, de ter um filho, o luto que vem e volta sem aviso, o sol se pondo lentamente na praia, as rugas no rosto que apareceram sem aviso, o cochilo na rede, e a crise de ansiedade que não passava nunca, demorou tanto assim?


Encontrar as perfeitas palavras que descrevem uma ideia, e nos fazem pensar é uma grande arte. Parabéns Branca!
"Sempre imaginamos que caminhamos em direção ao futuro, para eles a lógica é inversa. O passado é visível: sabemos o que comemos no café da manhã ou o que aconteceu ontem. Já o futuro permanece desconhecido, invisível."
Essa passagem me ensinou uma nova maneira de ver. Gostei do texto!